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Minas no controle 

Mesmo com tantas dificuldades, as mulheres seguem sendo a maioria no mundo dos games e lutam diariamente por respeito

Por Carol Merência e Reinaldo Chianchetti

Se você ainda pensa que jogar videogame é coisa de menino, está muito enganado e desatualizado. Ao longo de toda a história, as mulheres, assim como na sociedade, tiveram sua inserção muito estereotipada no mundo dos games. Segundo a Pesquisa Game Brasil 2021, mesmo tendo que enfrentar diversas dificuldades, como preconceito e assédio, as mulheres continuam sendo maioria no mundo do videogame no país, representando 51,5% dos gamers

Os consoles que surgiram nos anos 1980 deram o pontapé inicial para que as mulheres tivessem o acesso dificultado aos principais jogos daquela época. O modo como a sociedade tratava a figura feminina no geral trouxe jogos como a Ms. Pac-Man, para ter um romance entre ela e o personagem principal, o Pac-Man. Dez anos depois surgiram os Pink Games (jogos de colorir, montar casinha, vestir boneca), todos voltados para reforçar o papel da mulher dentro de casa. Essa segmentação por gênero, fez com que pouquíssimas meninas tivessem acesso aos jogos principais da época e que eram voltados exclusivamente ao público masculino, como jogos de estratégia, tiros, corridas, esportes, luta, entre outros. 

Isso também reflete diretamente nos personagens femininos desses jogos. Nesse mundo virtual, a mulher ainda é representada com um olhar de sexualização. O jogo Street Fighter V, lançado em 2016, por exemplo, trouxe a personagem brasileira Laura com um visual alternativo de roupas curtas. A jornalista e influencer, Bárbara Gutierrez, escreveu uma matéria sobre A hipersexualização de Laura é justificável? e em nossa entrevista deixou claro que se existissem mais mulheres desenvolvendo games, esse estereótipo seria diferente.

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Bah Gutierrez
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Passos lentos 

Assim como na vida, o mundo dos games replica os conceitos e valores - ou a falta deles - da sociedade. “O esporte é o reflexo da sociedade e tem mostrado muito preconceito”, diz Domitila Becker, apresentadora do campeonato brasileiro de Rainbow Six. As oportunidades dentro dos jogos eletrônicos para as mulheres têm crescido a passos lentos, seja por novas oportunidades em times profissionais ou até quando surge um convite para ser caster num dos principais jogos de battle royale. Viic Rodrigues, jornalista e comentarista da Ubisoft Brasil, relata que demorou muito para aceitar o título que sua carreira trazia no meio feminino.

Viic Rodrigues
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A sua parceira de trabalho, Domi Becker, também teve um receio parecido quando recebeu o convite. Ela que sempre trabalhou com esportes nunca se viu apresentando campeonatos de jogos eletrônicos. Mas para a sua surpresa, era esse perfil que a Ubisoft Brasil procurava e encaixou perfeitamente. “Eu gostei muito da proposta, comecei a estudar e me apaixonei. Porque no fundo, claro, apesar de ser um mercado diferente, envolve qualquer coisa que qualquer modalidade (esportiva), que é a paixão. E trabalhar com paixão é incrível” - diz Domi Becker.

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 “Tem toda uma cultura onde uma menina quando chega da escola, e ela é adolescente, ela vai ajudar a mãe com tarefas de casa. O menino (a maioria) chega e ele vai jogar videogame, ele vai se divertir, então ele tem essa intimidade mais cedo com os jogos, ele se desenvolve mais cedo independente dos jogos”  

A dona dessa fala é Amanda Abreu, ou “AMD22k” como é conhecida no mundo do eSport. Ela tem 26 anos e é jogadora profissional de Counter Strike há 9 anos, atualmente ela defende as cores da equipe Havan Liberty. Amanda, que treina de segunda a sexta, a partir das 13h, sabe que “tem muito dessa pressão da gente ter que se esforçar 10 vezes mais do que um cara normal para conseguir chegar onde ele chegou. Tem essa pressão da questão de um cara que sabe metade do que eu sei, viveu metade do que eu vivi, mas tem mais garantia nas palavras falando sobre o game do que eu.”  

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A heptacampeã mundial de Counter Strike é a única mulher a ter uma skin em sua homenagem no jogo, entende que ter esse sucesso não foi fácil, AMD, como muitas outras mulheres, ainda luta pelo reconhecimento e respeito para as minas. “Às vezes uma mulher vai jogar e ela está começando e não tem habilidade suficiente… e ela não vai ser xingada como um menino vai ser xingado de “ruim”, de “noob”, ela vai ser xingada por ser mulher”.

"Pela voz deve ser toda apertadinha"

"Só foi essa mina entrar na partida que a gente  começou a perder"

"Mulher só atrapalha o jogo"

"teve um vez que o cara falou que queria me c*m3r de 4 quando tava jogando COD WZ na hora que o microfone abre no final da partida, ou seja, na frente de uns 100 jogadores”

"Agora entendi o porque você está jogando com esse bot, ele tem b*c3t4"

"Passa whats que eu não encho mais seu saco"

"Filha da p#t4, me deixou morrer. Tinha que ser mulher mesmo"

"Sua v4g*bund4, só serve pra ser c*mid4"

"No dia não tava jogando muito bem, ele disse “você é muito ruim devia ser estr3pr*d4 e morta” eu expus num grupo do face e os meninos acharam engraçado. Sai do grupo"

""Tá achando ruim? Vem ch3p*r meu #"

"Vai ter filho pra parar de encher o saco dos outros"

"Vsf mina lugar de mulher é fazendo outra coisa, n jogando"

"Sabe nem jogar, teu namorado deixa você jogar?"

"Você não pode jogar bem assim, é menina, está usando hack."

"Pq você tá gritando e sendo histérica?"

"A louça já está lavada?"

"Cala a boca e aprende a jogar"

"Porque não joga jogos da Barbie?"

" Vai aprender a jogar você é mulher é ruim só por nascer"

"Aqui não é o seu lugar"

Representatividade

Mesmo com um espaço conquistado com muita dificuldade, ainda vemos pouca diversidade no cenário. A pressão estética imposta pela sociedade contribui para que o padrão de beleza siga cada vez mais o mesmo caminho. A Bárbara, que está há cerca de 7 anos no mercado e já passou por sites renomados no mundo dos games, como repórter no UOL, Omelete, IGN e também como editora chefe no Versus, levanta a questão da representatividade como algo essencial para que o eSport continue crescendo. 

Bah Gutierrez
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“Eu cheguei depois da Nyvi, e com certeza o trabalho dela foi muito mais difícil. Ela abriu uma porta que eu tenho que agradecer sempre porque as pessoas já estavam acostumadas com ela e foi muito mais fácil para eles me aceitarem” - Domi Becker comenta
 

Apesar da baixa diversidade, já conseguimos presenciar algumas mulheres nos bastidores de eventos, apresentando programas, comentando campeonatos importantes, transmitindo seus jogos nas plataformas existentes e fazendo a diferença, nem que seja mínima, na vida de alguma menina. Uma figura muito importante no cenário é a pioneira Nyvi Estephan, ela que agrega várias profissões no seu currículo foi eleita a maior host de eSports da América Latina em 2019. Nyvi fez com que o crescimento do cenário de games fosse reconhecido e respeitado nas mídias tradicionais, segue sendo uma das principais referências no mundo dos esportes eletrônicos. Ver que outras mulheres chegaram lá, faz com que esse seja o combustível para que todos os dias alguma menina possa se esforçar cada vez mais.

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Precisamos ser ouvidas 

Quando você ouve algo que não gosta ou que te deixa constrangida, a primeira reação é reclamar, certo? Nos jogos virtuais não é diferente. Quando as meninas estão jogando ou transmitindo esse momento para outras pessoas assistirem, acontece de ouvirem xingamentos e comentários desnecessários. 

 

Segundo a nossa pesquisa, que ouviu 121 meninas do cenário dos games, 83,5% já sofreram assédio enquanto jogavam.

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Pesquisa realizada pelo Google Forms. 

O site You Go Girls, criado em 2018 pela Nayara Dornelas, foi um lugar que nasceu para divulgar eventos, campeonatos femininos e um espaço para que a figura feminina tivesse voz no meio de tantos outros portais. Com o tempo o site foi crescendo e hoje conta com uma super equipe de mulheres que escrevem nele. A Carla Herd, diretora comercial, passou a fazer parte da equipe depois de muita insistência. Conversando com elas sobre o posicionamento das marcas referente a esses assédios, foi comentado sobre como o meio feminino ainda é visto como um marketing e não como deveria ser visto. Elas compreendem que mesmo reportando, as marcas preferem fazer vista grossa e seguir em frente, pois não é relevante para a imagem dessas empresas levantar polêmica e combater o problema de frente. 

Carla Herd
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Campeonatos Femininos 

Os campeonatos femininos têm surgido cada vez mais. Alguns desses torneios trazem grande visibilidade para que novos talentos possam ter oportunidades em times profissionais. Segregar os campeonatos por gênero é um jeito que a comunidade viu a chance de ser notada. A presença da mulher no competitivo precisa ser vista como algo normal, saudável e seguro. Ser respeitada pelo talento e dedicação que merecem. 

“A gente não está jogando no cenário feminino para ter uma vantagem, porque não existe essa vantagem. A gente está porque queremos um ambiente que podemos errar sem ser julgada por errar por ser mulher. A gente quer aprender como vocês aprenderam um dia sem ninguém estar julgando você por ser homem” diz Amanda Abreu.
 

As competições mistas, que realmente contém participação efetivamente mista, são um futuro distante, um lugar que as mulheres possam demonstrar o seu potencial e se sentirem seguras com os colegas de equipe, independente das críticas que irão surgir. Os jogos competitivos 100% feminino visam dar esse espaço, onde as gamers se sintam motivadas, apoiadas e que as críticas sejam construtivas e girem em torno da sua jogabilidade, e não somente por ser mulher. 

Domi Becker
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Neste áudio, Domitila ressalta a importância do campeonato feminino e frisa que elas não estão no competitivo misto, porque não tem oportunidade. O problema é realmente maior do que parece. O restante do iceberg envolve patrocínio das marcas, times profissionais investirem pesado e ter interação entre feminino e masculino para que os níveis possam se elevar cada vez mais.  

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Um longo caminho a trilhar 

Ser respeitada e garantir o seu lugar por direito não vai ser fácil. Vão existir muitas pedras no caminho, você sentirá vontade de chorar, largar todos os seus sonhos e se esconder atrás de um nick masculino (identidade masculina), para não ser mais importunada por pessoas sem limite algum na vida. Mas, ninguém disse que ia ser fácil né? Se todas essas mulheres que entrevistamos tivessem desistido, hoje não teríamos história para contar. Hoje não teríamos visibilidade e nem voz para ser quem somos. Continuem a lutar pelo seu espaço, um dia chegaremos lá! 

Para ser uma fagulha nesse combustível que você está guardando, aqui vai o nosso incentivo: 

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