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O que antes era entretenimento, hoje é profissão!

A cada dia que passa, com a profissionalização dos campeonatos de games, os esportes eletrônicos geram novas modalidades de empregos

Por Mariana Bortolini

Muitas pessoas imaginam que a profissão no mundo dos esportes eletrônicos se resume a ser jogador profissional, mas não é só disso que o cenário de eSports vive. Por trás dos bastidores, o mercado de eSports no Brasil não para de crescer, e os cargos e funções acompanham esse crescimento. Cada profissional tem funções necessárias dentro de um time de esportes eletrônicos, desde cargos administrativos até profissionais que cuidam da saúde mental e física dos jogadores. 

 

Atual CEO da equipe Vivo Keyd, Tiago Xisto ingressou no time em 2019. Seu cargo é de liderança e garante que todos os departamentos e colaboradores estejam indo na mesma direção. “É um cargo extremamente de gestão de pessoas, de você garantir que os líderes de cada departamento estejam alinhados e de acordo com os objetivos, e que a empresa esteja na direção correta. Eu fico coordenando o departamento de esporte, marketing, o pessoal de saúde, conteúdos, influenciadores, para que todos estejam em harmonia e trabalhando para os objetivos da Keyd”, pontuou o diretor executivo de 33 anos. 

 

Formado em publicidade e propaganda, Tiago afirma que ser um CEO de times de esportes eletrônicos é um desafio. O especialista aponta, ainda, que se pudesse levantar uma bandeira sobre o cenário, essa bandeira seria sobre a profissionalização do cenário de eSports. “O cenário do Brasil só vai crescer no sentido de mais times, jogadores, salário, estrutura, marcas, quando os profissionais que estiverem dentro do eSports, realmente sejam profissionais da sua área de atuação”.

 

“A bandeira que eu levanto é que cada vez mais pessoas profissionais, pessoas de outras áreas, com outras experiências, com outras vivências, venha para os eSports para contribuir e trabalhar. Que eu, uma pessoa de fora, posso entrar no eSports, e tenho muito o que contribuir. Acredito que esse é o único caminho para a gente ter um crescimento sustentável”.


Além do CEO, autoridade máxima de uma empresa, existem cargos como diretor, que lida com a organização de campeonatos, Marketing, que cuida das vendas, promoções e comunicação com o público dos jogos eletrônicos, comunicação e jurídico, responsáveis pelo contrato de atletas, agenda de compromissos dos jogadores, viagens, contratação de profissionais, entre outros assuntos.

Tiago Xisto
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TIAGO XISTO

CEO VIVO KEYD

Foto:  Crédito - Reprodução /  Divulgação

Tiago Xisto
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Área da saúde 

Psicólogo

O psicólogo foi umas das primeiras profissões da área da saúde a fazer parte dos eSports. Hoje, em busca de uma melhor performance, os atletas profissionais vão em busca do auxílio de fisioterapeutas, nutricionistas, entre outros profissionais para apoio no dia a dia. 

Psicóloga de time de eSports desde 2018 e atualmente trabalhando para o time de LOL (League of Legends) na Kabum e em várias modalidades para a Vivo Keyd, Airini Bruna, de 27 anos, começou a jogar e acompanhar o cenário competitivo durante sua graduação. Após sua formação, decidiu engatar na especialização da psicologia do esporte, o que acarretou certo interesse em esportes eletrônicos após uma oportunidade de estágio na INTZ. “Não tinha pretensões iniciais de trabalhar com essa área, apesar de gostar bastante”, comentou Bruna. 

A especialista acredita que o objetivo da psicologia para os jogadores de eSports é a saúde mental. Bruna diz ainda, que sua profissão é um diferencial enorme para as equipes. "Quando os times pensam nas contratações de psicólogos, é para alto rendimento, mas eu tenho o objetivo maior: a saúde mental do jogador. Ele precisa ter controle das emoções, da ansiedade, saber lidar com a diversidade, entre outras habilidades que são importantes dependendo dos jogos. O profissional da psicologia nesse campo é uma das coisas mais essenciais para ter um bom desempenho”. 

São vários os métodos que a psicologia trabalha para a preparação dos atletas antes e durante as competições. A profissional explica que o trabalho é feito tanto de forma individual, quanto coletiva, para os jogadores atuarem de maneira cooperativa. “Foco em atendimentos individuais, onde consigo explorar a dificuldade individual de cada um dos atletas, e também faço os atendimentos em grupo, onde a gente foca na dificuldade coletiva, já que são cinco atletas nas modalidades, e cinco personalidades diferentes”. 

A forma de se expressar é o problema mais visto, lembra Bruna. “O que eu recebo bastante de demanda é a dificuldade de se expressar. Eu trabalho muito em como eles podem se expressar em relação a comunicação, efetividade e também controle das emoções. No jogo, quase todos eles, LOL, CS, R6, Valorant, precisam de uma comunicação muito precisa, então se eles não passam as informações, isso pode ser um ponto a menos no round, ou um objetivo perdido”.

Todas as técnicas são benéficas, garante Bruna, que recebe respostas positivas dos jogadores. “O feedback que eu sempre recebo é que eles já entram mais concentrados e com as emoções neutras. Essa neutralidade ajuda às vezes na tomada de decisão, em terem comportamentos mais assertivos dentro do jogo”. 

AIRINI BRUNA

PSICÓLOGA
VIVO KEYD

Foto:  Crédito - Reprodução /  Instagram @airinibruna

Nutricionista

Como em diversos esportes convencionais, tais como futebol, basquete e vôlei, o acompanhamento de um nutricionista é essencial, e no mundo dos eSports não é diferente. 

Engatinhando aos poucos, a nutrição para os esportes eletrônicos ainda não é tão conhecida, mas é de extrema importância para que os jogadores tenham todos os nutrientes fundamentais para o alto desempenho nos jogos. 

Nutricionista há três anos, Larissa Amorim conta que percebeu que faltava algo para complementar o time de especialistas na área da saúde. “Eu vi que tinha psicólogos e fisioterapeutas, e vi alguns players reclamando da alimentação deles, como isso estava afetando e diminuindo o desempenho e falei: ‘Nossa, como assim não existe nutricionista para essa galera que é atleta e também precisa de acompanhamento técnico?’. 

Segundo a especialista de 23 anos, o principal objetivo da nutrição é para o desempenho físico e mental dos jogadores, ajudando na melhora da concentração, memória, desempenho cognitivo, além de uma rotina muito regrada.

 

“Eu estabeleço o horário de café da manhã, o almoço que precisa estar equilibrado, tem que ser uns 45, 60 minutos antes dos treinos, para ter esse tempo de digestão. E também nos lanches intermediários, que é uma refeição mais leve, rica em proteínas, gordura de boa qualidade e carboidratos, para manter a energia até o final do treino”, apontou Larissa.

Entre um campeonato e outro, é recomendado que os jogadores comam algo que forneça energia de média absorção como snacks saudáveis. Batata doce chips, iogurte e chia são exemplos de snacks que vão dar energia sem pesar para os atletas. Larissa aponta, ainda, que a cafeína não é vilã para os jogadores. "É uma questão de quantidade. Ela aumenta a questão do sistema nervoso central, a melhora de raciocínio, é usada para pré-treino e até para exercício físico. Se ele (jogador) exagerar na cafeína, ele vai ter efeitos colaterais como ansiedade, tremores, perda de apetite, dá para encaixar, mas controlando a quantidade”. 

A hidratação desses atletas é outro ponto importante a ser levado em conta, já que isso garante um bom funcionamento cerebral, participando de todos os processos metabólicos.

LARISSA AMORIM

NUTRICIONISTA
LOUD

Foto:  Crédito - Reprodução /  Instagram @brocolaris

Larissa Amorim
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Fisioterapeuta

Recentemente, após o surgimento dos nutricionistas, a fisioterapia foi um dos departamentos que ganhou força no cenário dos jogos eletrônicos, fazendo parte dentre os profissionais que mais se destacam nesse meio. 

Com 23 anos, Davidson Magalhães, fisioterapeuta da PaiN Gaming, não imaginava trabalhar com a fisioterapia dentro dos eSports, mas através de uma publicação de um dos pioneiros em time de jogos eletrônicos, Vitor Kenji, Davidson acabou descobrindo que a fisioterapia estava dando seus primeiros passos no mercado. “Foi uma oportunidade”.  

Morando em Mossoró, interior do Rio Grande do Norte, Davidson encontrou diversas dificuldades em achar empregos, já que o cenário no Nordeste estava apenas começando. “Eu recebi muitos “nãos”, recusaram muitas propostas minhas, mas eu não fiquei triste porque eu sabia qual era o motivo. E aí eu falei: ‘Cara, não posso continuar aqui, se eu quiser mesmo me tornar fisioterapeuta de alguma equipe profissional nesta área de eSports, eu preciso ir para o mercado, e o mercado é em São Paulo’”.

Atualmente, atendendo a line de LOL (League of Legends), Davidson conta que a principal função do fisioterapeuta para os atletas de jogos eletrônicos é prevenir futuras lesões. "A gente não só trata as lesões, a gente previne e prepara o jogador fisicamente com atividades motoras, de agilidade e reflexo”, aponta o fisioterapeuta da paiN

Davidson lembra que as lesões podem variar de acordo com a modalidade, destacando as áreas do corpo mais afetadas desses jogadores. “Como eles passam mais de 10 horas sentados por dia, treinando e levantam poucas vezes, eles têm muitas dores na região da cervical e lombar, além dos punhos, onde eles realizam a maior parte das atividades. Mas as que podem se lesionar mais fácil é a região de mão, punho, cotovelo e ombro, mas vai depender da modalidade, pois temos LOL, CS, Free Fire, Dota 2, entre outros”. 

No esforço para afastar o sedentarismo dos atletas, o fisioterapeuta acredita que a atividade física é um item importante para prevenir lesões. “A maioria dos jogadores que estou atendendo agora, tem escoliose, problema que pode vir aumentar pelo sedentarismo. Eu chego e falo: ‘vou separar um alongamento para vocês e vocês realizam de duas a três vezes por dia’, porque só a fisioterapia em si não vai ajudar se o jogador não fizer por si mesmo. Para ser uma coisa que tenha positividade para o jogador, tem que ser rotineira e frequente”. 

“Na hora do jogo muitos sentem aquele nervosismo, tensão e ansiedade, então o fisioterapeuta é importante para o pré jogo, a gente prepara quebrando tensões musculares, a fadiga e nervosismo. Quanto mais o fisioterapeuta trabalha com esses jogadores, menos dores eles sentem e menos propenso a lesões eles ficam”, diz Davidson, apontando que a fisioterapia é um enorme diferencial para equipes de eSports

FISIOTERAPEUTA PAIN GAMING

DAVIDSON MAGALHÃES

Casters

Narradores e comentaristas

O que seria de uma competição sem um narrador ou comentarista? Em qualquer área, seja ela futebol ou campeonatos de eSports, é preciso alguém para dar emoção às partidas, fazendo o público vibrar com cada lance. Os profissionais atuam enquanto a partida está acontecendo, sendo responsáveis por falar como está o andamento do jogo, além de mostrar os principais lances.

Para muitos, o narrador é apenas uma voz, mas o profissional necessita de muito conhecimento e preparação para manter o telespectador informado sobre a história dos times e dos próprios jogadores. É responsabilidade do narrador, também, manter a interação do público durante o intervalo de cada jogo, conversando com o comentarista sobre os acontecimentos mais marcantes até então. 

Coach

Treinadores

Head Coach, ou treinador, é responsável por orientar os atletas e sua figura no competitivo é essencial para os jogadores. A função do profissional é definir as melhores táticas para superar os adversários e dar suporte, preparo mental, emocional e físico que as partidas exigem. 

Foto:  Crédito - Reprodução /  Divulgação

Analista

Ligado à evolução da equipe, além de acompanhar outros times para levar informação aos seus jogadores, o papel do analista é analisar o confronto, antes e após o jogo, buscando entender o desempenho dos atletas durante a partida. O profissional cria estratégias para que todos os erros dos jogadores sejam corrigidos previamente e também desenvolve métodos para entender o melhor caminho para a evolução da equipe aos objetivos necessários.

Manager

A função do manager é de extrema importância para as equipes. O profissional atua como um gestor de pessoas, coordenando as atividades dentro e fora do jogo, fazendo com que os treinos não sejam cansativos e os compromissos profissionais não atrapalhem o dia a dia do atleta. Seu papel é acompanhar os acontecimentos, para que, se algo saia do controle, ele informe a diretoria do time sobre o que está havendo. É um elo entre os jogadores e as organizações de campeonatos. 

O trabalho do manager, também, é organizar a agenda do atleta em seus compromissos, sendo flexível ao tempo que o jogador tem. O especialista mantém a estabilidade do ambiente de trabalho e faz com que os jogadores não se sintam como máquinas, e sim como seres humanos que têm uma vida além do jogo. 

Juiz

Parecido com um juiz de esporte convencional, o juiz em partidas de eSports tem a autoridade máxima durante a partida, sendo o responsável por certificar que as equipes seguem as regras do campeonato. O profissional deve ter conhecimento do regulamento das punições a serem cobradas por cada infração cometida pelo atleta, além de verificar o antes, durante e depois da partida, para garantir que o jogador não tenha sido prejudicado por algum bug dentro do jogo, ou defeito na própria máquina. 

Também é responsabilidade do juiz informar aos jogadores as regras do campeonato, liberar pausas dentro do jogo, sempre explicando o motivo na qual parou o jogo, e informar aos atletas quando a máquina apresenta qualquer problema. Durante as partidas, o juiz fica posicionado ou atrás dos jogadores, ou na frente dos computadores, atento às atitudes dos jogadores, já que xingamentos geram punições e, dependendo da quantidade de ofensas, o atleta poderá até ser demovido. 

Desenvolvedor de Games

Um desenvolvedor de games tem como responsabilidade a criação de jogos. Sua função é desenhar, programar e testar jogos em videogames, computadores e plataformas mobile (celulares e tablets). Um jogo, para ser desenvolvido, passa por várias etapas como a animação dos personagens e objetos, criação de áudio e a história, tradução e localização, caso ele seja disponibilizado em vários idiomas, testagem, produção e edição. 

A indústria dos games é enorme e o desenvolvimento dos jogos é uma atividade multidisciplinar onde se tem a colaboração de profissionais como artistas plásticos, engenheiros, dubladores, ilustradores, gamer, designer, roteirista, programador, entre outros.

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