Dos simuladores para as pistas

A prática leva a perfeição: treinar em simuladores é o caminho mais fácil para quem quer se tornar um piloto de verdade, sem correr riscos e sem precisar investir um rio de dinheiro para começar a competir

Por Matheus Nazaré

Ser um piloto no Brasil é uma tarefa árdua, cansativa, e principalmente muito cara. Para começar, gostar de corridas no país do futebol já faz com que você seja um estranho para os amigos e familiares. E tem mais: a probabilidade de você ter dinheiro pra iniciar nas categorias de base sem passar aperto são bem baixas (infelizmente).

Mesmo com grandes ídolos do esporte influenciando várias gerações, nomes como Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet (verdadeiras lendas do esporte automotor) são menos relevantes do que Neymar e Pelé, por aqui. Apesar disso, crianças e adolescentes sonham em ser pilotos, mas deixam isso de lado por conta de não conseguirem patrocinadores.

Os esportes automotores têm, em sua grande maioria, grandes investidores por trás de equipes e pilotos, patrocinando provas ou temporadas, fazendo um ciclo de ganhos entre os prêmios de corridas e lucros das vendas de seus serviços/produtos oficiais e licenciados. No entanto, esse cenário é reservado, em geral, para os já profissionais ou grandes promessas do segmento.

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Dessa forma, conseguir começar no mundo das corridas é extremamente caro, e caso você não tenha “Berço de ouro” (assim como inúmeros pilotos da Formula 1 atual), o caminho tende a ser um tanto quanto complicado. Talvez agora você esteja se perguntando “Ok, mas se eu quiser começar agora, o que eu faço?”; e a resposta é relativamente simples, envolvendo duas alternativas: alto investimento, treino e dedicação, ou pagar uma fração do valor e iniciar uma carreira nos eSports

Em São Paulo, por exemplo, só para começar a “brincar de correr” num kart (um pequeno monoposto, geralmente montado com motor de moto de baixa cilindrada e peso extremamente baixo - imagem ao lado), é necessário desembolsar pelo menos R$85,00 em baterias que variam entre 25/30 minutos. E ainda assim, para ter um gostinho das competições, é necessário se inscrever em campeonatos amadores, que são sediados em kartódromos maiores, e consequentemente mais caros.

Então, por que não pensar em simplesmente apelar para o bom e velho videogame? Ele sempre serviu muito bem para matar aquela nossa vontade de correr por aí em Interlagos, Nurburgring (renomado circuito Alemão, com mais de 26 km de extensão e inúmeras variações de altitude e clima no traçado)  ou qualquer pista que seja, não é? Então se aliado a um bom volante e um jogo com um mínimo de física realista, já dá pra começar.

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Bolso vs. Praticidade

Parece estranho pensar que um simulador possa te levar ao mundo das corridas profissionais, mas essa é uma prática cada vez mais comum atualmente. E para se ter uma ideia do nível de acessibilidade, é só pensar nas cifras que envolvem os dois “meios” de entrada pro automobilismo: Considerando somente temporadas de corridas, sem custos de equipe, transporte, viagens, combustível e taxas administrativas, os primeiros anos de carreira de uma criança de 8 a 10 anos variam entre cinco e sete mil reais por mês.

 

Sim, R$7.000,00/mês só para começar. É nessa hora que você com certeza já está olhando para o seu console com outros olhos, pensando em como você pode se tornar um piloto, eu aposto.

Seja em um console ou um computador, no Gran Turismo ou no Assetto Corsa, os eSports são a melhor forma de começar a treinar ou até mesmo competir. Basta um jogo, uma televisão, volante e pedais e bastante vontade e treino. Muito treino.

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E se for comparar os investimentos, a proporção entre 1 ano de corridas de kart contra a compra de console ou pc com periféricos e jogos, a diferença é de quase 20 para 1. E mesmo comprando volantes dos mais avançados, computadores com configurações de alto nível e televisões topo de linha, o investimento ainda é infinitamente mais baixo (além de ser rápido e poder ser parcelado, facilitando ainda mais o processo). E tem mais: com o simulador você consegue treinar em qualquer lugar, a qualquer hora, e com segurança, sem ter o perigo de se machucar ou machucar alguém à sua volta.

Nem só de F1 se vive o automobilismo

A Formula 1 é sempre a meta óbvia das crianças e jovens que se interessam por corrida, mas o Drift (uma modalidade de corrida um tanto quanto diferente, onde ao invés de disputar quem chega primeiro, a competição é pra ver quem faz as melhores derrapagens ao longo de um traçado curto e cheio de curvas) vem ganhando força no Brasil, com as novas gerações sendo influenciadas principalmente por youtubers. Diego Higa e Bruno Bär, são exemplos dessa leva de influenciadores digitais que mostram o dia a dia dos seus treinamentos e também das suas evoluções por meio dos simuladores.

Alguns pilotos amadores, também se aventuram e incentivam o uso dos eSports e simuladores para começar, seja competindo ou se divertindo, como é o caso do Produtor e Fotógrafo Arthur Barros (ex-produtor do canal Auto Super), que conta um pouco da sua trajetória nos simuladores e no drift em um bate papo que você confere a seguir:

Quando o assunto é simulação em automobilismo, as variantes são muitas, mas é possível ter um bom nível de experimentação tendo apenas um console e um jogo do seu agrado (mais pra frente daremos um guia completo com tudo que é necessário para um setup iniciante). Como foi dito no vídeo, não precisa de uma televisão ultra cara, um PC gamer de ultima geração ou um volante com tudo que tem direito: use o que você tem ao seu alcance e vá aprimorando sua técnica e seus equipamentos com o tempo.

Formula 1 & Corridas virtuais

Saindo do mundo do drift, pilotos como Rubens Barrichello e seus filhos (Eduardo e Fernando Barrichello) treinam diariamente em seus simuladores montados em casa, a fim de atingirem um maior nível de preparo e competitividade em suas respectivas categorias. Para termos uma ideia dos benefícios de treinar em simuladores, Eduardo, filho mais velho de Barrichello já está competindo e iniciou sua carreira nas pistas (reais) competindo na Formula 4 Europeia, pela equipe Alpine (divisão de competições da francesa Renault, já presente na F1 e com ampla história no campeonato mundial de Rally).

Rubinho mostra em vídeo do canal Acelerados (do qual ele também é cofundador e apresentador), um pouco da estrutura que eles treinam em sua casa nos Estados Unidos e também seus setup’s de cadeiras, monitores, cpu’s e outros periféricos que envolvem a montagem de um cockpit caseiro. E tem mais: Barrichello ainda guarda “o ouro” dos seus simuladores no interior de São Paulo. Seu simulador mais avançado foi montado pela Toyota Gazoo Racing (equipe pela qual Rubens correu as 24 hs de Le Mans de 2020 - prova realizada no circuito francês, uma das mais importantes do calendário de corridas), e é seu ponto de treinamento para se preparar para todo tipo de corrida.

Para alguns, ainda é brincadeira, mas o automobilismo virtual é um esporte sério e que movimenta premiações "de gente grande", chegando aos R$10 mil em algumas competições (via Jornal Balcão Automotivo), considerando apenas o cenário nacional. 

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No cenário internacional, a 'brincadeira' é um pouco mais séria. Ano após ano, equipes como Ferrari e McLaren investem alguns milhares de dólares na criação e manutenção de centros de treinamento e desenvolvimento de jovens pilotos. E para se ter uma ideia do prestígio da categoria, durante o início da pandemia do Covid-19, no período que as corridas foram canceladas, a organização da Formula 1 promoveu eventos virtuais para sanar a vontade dos fãs de assistirem corridas - e por sinal, o primeiro vencedor do ano de 2021 foi o brasileiro Enzo Fittipaldi.

Técnica + treino 

 

A ideia de fazer drift ou pilotar um F1 em casa, sem correr riscos e sem gastar um rio de dinheiro são atrativos para pessoas comuns, como eu ou você, que não buscam “virar tempo” (termo do automobilismo, que significa, a grosso modo, buscar os menores tempos possíveis em qualquer situação) e nem competir. Para isso, precisamos de bem menos do que um simulador multimilionário como o citado anteriormente. 

Vale lembrar que, independente do nível de simulação que você possa alcançar, as diferenças da vida real para o videogame são grandes. Mesmo com meses de dedicação, treinos intensos e inúmeras horas de 'pista' nos simuladores, a sensação nunca será a mesma. Obviamente a simulação traz uma noção do que fazer muito avançada, a ponto de uma pessoa que nunca correu em pista conseguir acompanhar motoristas com mais experiências em Track Days (eventos realizados em autódromos, feitos para colocar seu próprio carro para correr na pista a um valor acessível).

 

Em entrevista com o jornalista Cassio Cortes (que é apresentador do canal Acelerados, junto com Rubens Barrichello e com o também Jornalista Gerson Campos), tivemos a oportunidade de enxergar as diferenças entre as realidades. 

Para Cassio, os simuladores são uma forma de aprender técnicas e aprimorar, de forma aproximada, as habilidades de volante. Ele ainda ressalta a questão de técnica nas competições:

“O automobilismo é um esporte de margens ínfimas - se eu correr uma prova de 100 metros rasos contra Usain Bolt, meu tempo será uns 100% pior, mas se for correr de kart indoor contra Lewis Hamilton, meu tempo de volta vai ser menos de 2% mais lento. 

Essa diferença marginal de 2% é, grosso modo, o que chamamos de "talento" no automobilismo, e vem de sensibilidade pura. É basicamente a forma como o cérebro e o corpo do piloto interpretam e reagem a enorme volume de informações que recebem a cada segundo (principalmente a força G, mas também a questão tátil: como as diferenças de grip na pista afetam o peso do volante e do pedal do freio, por exemplo). 

Tudo isso são coisas que nenhum simulador "comum" consegue reproduzir. Em resumo, o simulador é uma excelente ferramenta para se aprender os princípios básicos da pilotagem, mas nada substitui a prática no mundo real para a evolução de um piloto.”

- diz Cassio Cortes

E se depois de ler essa matéria, sua vontade de começar a correr nos simuladores cresceu, aqui vai uma lista básica de tudo que você precisa para iniciar sua experiência virtual:

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Agora que já sabe por onde começar, aperte os cintos, sente na sua cadeira, e jogue até a hora que não quiser mais. Os simuladores estão aí, use e abuse de suas possibilidades.

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